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quarta-feira, 23 de novembro de 2011

A longa soneca da ursa

O OUTONO vem chegando no hemisfério norte — é só ‎olhar para as aves no céu migrando para o sul. Querem fugir do ‎inverno rigoroso. Há bandos de estorninhos-malhados batendo as ‎asas — que alegria! Há também grous voando em ‎formação de V — tão imponentes! Olhando para baixo, ‎lá vai a ursa-parda se arrastando com passos pesados. Ela também ‎enfrenta o problema da sobrevivência. Com a aproximação do ‎inverno, a vegetação seca e, com o frio intenso, a terra fica ‎gelada e a neve acoberta os bosques. Para quem tem asas não há ‎problema. É só voar para outras bandas. Mas e a ursa-parda? Bem, ‎ela não tem como sair correndo pelos bosques, agora inóspitos, e ‎migrar para regiões mais quentes. Será que existe uma saída para ‎ela?‎

Existe, sim, e é bem prática. Ela sabe que, durante o verão, deve ‎se alimentar muito bem a fim de fazer reservas para o inverno e ‎ter condições de hibernar até a primavera. Resumido assim, parece ‎simples. Mas a realidade é bem mais complexa. Imagine como você ‎ficaria, se não comesse nem tomasse líquidos por seis meses! No ‎caso da ursa, para compensar a falta de alimentos e de água, ‎ocorre algo surpreendente durante a longa soneca hibernal. São ‎fases interessantes que devemos analisar.

Verão — trabalho intenso


Para conseguir jejuar por vários meses, a ursa precisa ficar mais ‎robusta e com constituição mais resistente para ter energia de ‎sobra. Não é hora de se preocupar em manter a forma. O importante ‎agora é criar gordura. São camadas de gordura que, em algumas ‎partes do corpo, chegam a ter até oito centímetros de espessura! ‎Se a ordem é comer, nada como as frutinhas silvestres, bem ‎docinhas, de que ela tanto gosta. Mas ela não é exigente. O que ‎aparecer na frente — raízes, pequenos mamíferos, ‎peixes e formigas — está ótimo. Com a chegada do ‎outono, dos 130 quilos iniciais ela pode ter aumentado para 160 ‎quilos, dos quais um terço é gordura (a essa altura o macho pode ‎estar pesando uns 300 quilos). Está chegando a hora de entrar na ‎toca e mergulhar no sono hibernal. Só que, antes disso, ela ‎precisa parar de se alimentar e evacuar até limpar bem os ‎intestinos. Depois, por uns seis meses ela não come, não urina ‎nem defeca.‎

A toca pode ser uma gruta, um formigueiro abandonado ou debaixo ‎de uma árvore caída. O importante é que seja um lugar tranqüilo. ‎Afinal de contas, ninguém gosta de ser perturbado enquanto dorme. ‎Agora ela precisa providenciar “colchão” e “roupa de cama”. Ela ‎se põe a juntar galhos de espruce, musgo, turfa e outras coisas. ‎O seu “cantinho” precisa ficar bem aconchegante. Na realidade, a ‎toca não costuma ser muito maior do que o necessário para abrigar ‎o volumoso corpo da ursa. Com a neve, a toca fica toda coberta ‎com exceção de um orifício, por onde entra o ar. Só vê essa ‎pequena abertura o observador muito atento.‎

A soneca

Os animais que se pode dizer que realmente hibernam são alguns ‎mamíferos de pequeno porte, como o ouriço-cacheiro, o morcego e o ‎arganaz. Passam grande parte do inverno em um estado bem ‎semelhante à morte. A temperatura do corpo cai, chegando a ser ‎quase igual à temperatura ambiente. Mas no caso da ursa, a ‎temperatura cai apenas uns 5 graus Celsius, e o sono não é muito ‎profundo. “Não é como se estivesse desacordada. Via de regra, uma ‎vez ao dia ela levanta a cabeça e muda de posição”, explica o ‎professor Raimo Hissa, que há muitos anos pesquisa o sono ‎hibernal dos ursos, na Universidade de Oulu, Finlândia. Mas os ‎movimentos da ursa não passam disso. Em pleno inverno, é difícil ‎ela sair da toca.‎

Durante esse período, as funções vitais no corpo da ursa operam ‎em ritmo lento, a fim de poupar energia. Os batimentos cardíacos ‎caem para menos de dez por minuto, e o metabolismo diminui ‎bastante. Assim que ela pega no sono gostoso e começa a roncar, ‎inicia-se o processo importante de queima de gordura. A quebra do ‎tecido adiposo supre as calorias e os líquidos necessários para a ‎ursa. Apesar de as funções vitais estarem em ritmo mais lento, o ‎metabolismo produz certa quantidade de dejetos. E agora? Como ela ‎vai se livrar deles, sem defecar e sujar a toca? Isso não é ‎problema para a ursa. O corpo dela simplesmente recicla os ‎dejetos!‎

O professor Hissa explica: “A uréia, composto de nitrogênio ‎encontrado na urina, é reabsorvida pelos rins e pela bexiga e ‎transportada pelo sistema circulatório até os intestinos, onde é ‎hidrolisada por bactérias e convertida em amônia.” E o mais ‎surpreendente é que essa amônia volta ao fígado para formar novos ‎aminoácidos — a essência das proteínas. Então, na ‎realidade, o que acontece é que os dejetos são convertidos em ‎componentes que formam as proteínas. E essas proteínas mantêm a ‎ursa nutrida durante a longa soneca hibernal.‎

No passado, os caçadores de ursos esperavam essa época. Dentro da ‎toca, hibernando, os coitados eram presas fáceis. Localizada a ‎toca, esquiadores aos poucos cercavam o local formando uma roda. ‎O urso era acordado e morto. Que crueldade! É por isso que hoje, ‎em quase toda a Europa, é proibido caçar ursos no inverno.‎

Thiago Bastos

2 comentários:

lita duarte disse...

Oi, Thiago.

Prefiro que nunca cacem os ursos... eles precisam viver.:)

Thiagø disse...

Olá lita, a ideia central do texto é a longa soneca da ursa, o processo de hibernação de uma ursa, o quanto ela precisa se esforçar para conseguir armazenar energia, o processo é longo, para quando ela voltar do seu sono de princesa volte renovada e com força, entendeu? mas sua opinião também é valida. Obrigado Pela visita.